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| "O Copo" |
É, eu aprendi a viver sozinho. Não foi um aprendizado fácil, nem tão pouco voluntário, mas são tantas tapas que um dia você simplesmente aprende, ou melhor, acostuma-se consigo mesmo. Não estou aqui para dizer que essa seja a melhor alternativa, até porque eu não acho que seja... Acontece que, para mim, ela foi a única.
Não houve um momento na minha vida que eu não tentasse me encaixar em algum grupo, ser amigo de alguém ou me enturmar, de todas as brincadeiras eu era o excluído e de alguma forma isso realmente me afetava bastante. Havia em mim um incontrolável anseio em ser aceito... Não pela maioria, só pela minoria que eu amava. Outro problema, o amor. Sempre que eu percebo que amo alguém, acontece alguma merda.
Após quase duas décadas decido aceitar quem realmente sou, e aceitar todos os meus trejeitos, manias, trapalhadas, burradas, fui obrigado a saber respeitar a mim mesmo pois aprendi que ninguém mais faria. Eu desenvolvi a capacidade de ser extremamente cativante quando quero, aprendi a falar em público, a ser engraçado, a me vestir bem, aprendi que a demagogia é a melhor maneira chegar até objetivos... Eu sou uma máquina perfeita do sistema. Foda-se. Quase duas décadas depois eu sei que pensar em mim é a melhor maneira de viver, e eu vou fazer isso mesmo que eu tenha que chorar escondido por causa das coisas que disse, ou que eu ignore os que me fazem mal. Eu tenho a estranha mania de amar quem me fere, fico em dúvida se sou masoquista ou burro. Eu não odeio ninguém, não cheguei à solidão por causa do ódio, cheguei por causa do amor. Engraçado, bastaria apenas um gesto de uma certa pessoa para que deixar todas essas teorias de lado, mas esse gesto nunca irá existir. Volto a dizer, creio que todos os sentimentos bons existem da maneira mais pura, só acho que eles não cabem a mim.
Não liguem para o tom depressivo, aliás, eu não sou depressivo. Como eu disse, eu acostumei a ser sozinho e posso até falar que muitas vezes até prefiro. Estaria mentindo se dissesse que não sinto falta de uma pessoa, ou de outra, às vezes apenas eu não é suficiente para ser feliz... Mas ninguém é feliz o tempo inteiro, não é? Nem mesmo os que têm várias e várias pessoas.
Eu aprendi a não me fechar totalmente para o mundo, eu tenho vários amigos, acontece, que eles tem a mania de... passar. Sempre acontece: eu me entrego, conto todos os segredos e de repente passam-se três meses até que uma janelinha em qualquer rede social apareça com os dizeres ‘Eaí, sumido!’. De início, eu ia atrás, puxava assunto, tentava entender o porque, pedia explicações, pedia milhares de desculpas mesmo sem ter feito nada e, de praxe, sofria. Mas depois de um tempo eu deixei pra lá. As pessoas vem e agora eu aproveito o melhor delas – não sou do tipo que liga pra defeitos- vivo intensamente todos os momentos e tento passar algo de bom... Quando elas se vão, eu fico, sozinho. É engraçado isso parecer triste e eu não dar a mínima. Claro, existem saudades, vontades, expectativas... Eu tento ignorá-las. Se eu consigo? Quase nunca. Mas eu estou vivo, não estou?
Não desejo que ninguém viva sozinho, mas quero que saibam que esse não é um caminho tão terrível. Eu desejo que todos os que leiam isso tenham seus pares e se sintam completos por eles, mas saibam que não vale a pena suprimir-se ou rebaixar-se por isso. Você tem um valor inimaginável, tão grande que chega que talvez seja invisível aos seus olhos. O amor existe, mas o amor é puro, e ele só é puro quando correspondido. Nem eu, nem você estamos fadados a solidão, mas talvez tenhamos que trilhar esse caminho para que sejamos alguém mais forte.
O Copo.

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